Dia 17 . Segunda-feira. Primeiro dia de aulas. Último dia da mãe em Oslo.
Após uma semana cheia de aventuras e um fim-de-semana de turismo, o "trabalho" da mãe estava praticamente concluído. Só faltavam duas coisas : ir ao IKEA, tarefa que poderia concluir sozinha, uma vez que eu e ele temos uma relação muito "tu-cá-tu-lá", e abrir uma conta num banco norueguês! Sim, porque o problema de viver numa zona "Anti-Euro", não é só o ter de fazer contas a toda a hora... Há também a agravante de nos andarem constantemente a sacar taxas por qualquer mínima suspeita de movimentações! Mal pego no cartão, sinto-me logo com uma arma apontada à cabeça e "passa para cá uma taxazinha, oh minha!" Enfim...
Esta última tarefa da mãe em terras norueguesas mostrou-se INATINGÍVEL (e até para mim se está a revelar deveras complicado)! Ora, para abrir uma conta tenho que ser um "cidadã" norueguesa. Para ser cidadã, tenho que ter um ID-number e para ter um ID-number, tenho que me candidatar a um visto de residência e isso, meus caros, só para a semana! Após o registo junto À polícia Norueguesa, eles dar-me-ão permissão para residir no país por 6 meses, tendo para isso de esperar até 4 semanas. Depois de recebida a permissão, tenho que me dirigir ao peoplesregistry a fim de me candidatar a um Norwegian ID-number e, entre 3 a 4 semanas mais tarde, serei oficialmente Bicho da Noruega! Ora... após estes quase supostos 2 meses, posso então dirigir-me a um banco com o ID e o passaporte (porque, mesmo assim, o ID só não chega) e abrir a minha conta! Escusado será dizer que a maioria dos Erasmus, cagam no assunto e continuam a oferecer taxas ao bancos!
Este era então o ponto de situação : nada a fazer! Mas...! O Ruben falou-nos de um banco que teria um qualquer acordo com a Caixa e, como banco é caixa, lá decidimos recorrer ao dito, muito humildemente.
Passeámos então pela cidade à sua procura (do qual a mãe tinha retirado a morada num dia em que passámos por ele). Andámos, andámos, andámos e quando, finalmente, o encontrámos (e depois de um segurança monhé dizer que falava todas as línguas do planeta) um simpática (ou não) senhora, informou-nos que para tratar desses assuntos ter-nos-íamos de dirigir a um outro departamento! Adoro a facilidade com que inventam departamentos para tudo nesta cidade... difícil só lhe é apanhar o jeito! Lá voltámos para trás, atravessámos a Karl Johans, passámos numa praça que cheirava mal e chegámos ao banco, onde uma outra simpática senhora, que não fazia puto de ideia do que era a "Caixa Geral de Depósitos", nem tão pouco Portugal, me informou que realmente, só com ID-numb e passaporte ou nada feito!
Com isto, eram quase horas para a despedida! Caminhámos em passo mole até à Oslo S, onde a mãe foi pela última vez a uma WC pública e paga, não só para fazer o seu chichizinho da praxe, mas também para tirar fotografias ao seu interior todo "cabaret" com neóns azuis e coisas estranhas! Como tinha aulas às 13h, não a podia acompanhar ao aeroporto, portanto acompanhei-a só ao Flybussen... Não sei o que seria mais estranho, mas com certeza esta ideia de ser eu a dizer adeus, não era a melhor! Esperámos um bocado pelo autocarro (eles não são assim tão pontuais, na verdade), paguei o bilhete de autocarro da mãe (sim, que agora era eu a dona dos pagamentos!), dei-lhe o "dinheirinho para almoçar", um abraço forte cheio de beijinhos à mistura e lá entrou para o autocarro. Vi-a partir e pensei "Fodass! O que é que eu estou aqui a fazer?!" Odeio aquele gesto universal de uma mãozinha a abanar em forma de um "Goodbye" contínuo, mas agora era eu que não a conseguia controlar e ali estava ela frenética a abanar-se sozinha!
Virei costas e corri para as aulas, ocupando a cabeça com um "Não posso chegar tarde!" à mistura de um "Só espero que só falem Inglês!". Cheguei à faculdade, comi uma bucha (!) e corri em busca do Tegnesal 1. Quando parei para perguntar a uns noruegueses onde poderia ser o dito, olharam para mim com um ar de "E estás a comunicar connosco porque...." e decidi procurá-lo sozinha! Afinal não foi assim tão complicado, visto que o dito era logo ao lado das escadas que eu tinha subido... se tivesse dentes, mordia-me de facto!
Entrei a medo e olhei para os 3 professores que já lá estavam : um velhote baixinho, cabelo branco e ar sábio (Per Olaf Fjeld); um "jovem avançado" bem alto, cabelo meio curto meio comprido e encaracolado, óculos de massa pretos e um ar de tresloucado (Rolf Gerstlauer); e uma senhora, nem jovem nem avançada, com um carrapito mal amanhado no cimo da cabeça, umas roupas do "I just don't care..." e um ar deveras misterioso (Lisbeth Funck). Todos eles abriram um sorriso acompanhado de um "Good Afternoon", ao qual respondi com o meu mais amplo sorriso e me sentei.
Começou a apresentação do trabalho a efectuar... o pânico! Não me vou perder em detalhes porque nem eu sei o que é para fazer, mas acho que pode partir de um "só sei que nada sei". Sem terreno, sem programa, apenas um conceito e muita análise. O objectivo do estúdio é fazer-nos experimentar e sentir o que será a arquitectura, questionando-nos dos nossos meios e técnicas até hoje aprendidos.
Cerca de uma hora depois, distribuiu uns textos e acabou a aula. Eu, inocentemente, lá fui ficando, a achar que seria apenas um coffee break, até começar a ver o pessoal todo a sair. Já decidida a bazar também, aparecem os professores com um "Hey! You're the one with the big name!", partindo daí a habitual conversa "De onde vens? , 'Portugal' , Estás a gostar?! , 'Diz que é bonito' , Bem vinda então!", essas conversas, sabem?! Fiquei abismada não só com a simpatia dos professores (Noruegueses?! weeeiird!), mas também com a perfeição do Inglês de todos os que me rodeiam. Com isto já era, praticamente, a única pessoa na sala e apercebi-me que não havia de facto mais nada a fazer ali.
Mais uma fichinha, mais uma voltinha, tinha que voltar a Blindern! Burocracias à parte, é de focar o ponto do : SOZINHA! Parecia uma parola perdida, à procura de algo que já conhecia mas parecia esquecido, apagado da memória. Estava tudo na mesma, mas algo parecia diferente. Assuntos tratados, voltei para casa com a mesma sensação a perseguir-me!
Voltar a entrar no apartamento foi, sem dúvida, a parte mais estranho do dia! Onde anteriormente estavam 2 camas, sobrava só uma, estando a segunda dobrada e abandonada a um canto. Entre a cama e a secretária pareciam ter nascido mais uns metros de chão. Tudo parecia, de repente, enorme e vazio! Sentei-me a ler os textos que me tinham dado, mas rapidamente me fartei... não, não comecei o meu ano de Erasmus sentada a uma secretária a ler! Mas pouco havia para fazer! Eram 4 da tarde e o dia parecia estagnado. Estava a chover, o que conferia alguma moleza ao estado de espírito e impedia o físico de se movimentar!
Horas depois recebo uma mensagem da mãe a dizer "Cheguei!", mas MUITAS horas depois! Sim, a senhora chegou toda contente a contar as suas histórias e cagou-me na tola! E eu aqui, que não tenho uma grande relação com aviões, à espera de novidades! Mais tarde apareceu na net e a ansiedade sossegou.
Fui-me deitar e pensei "Estás sozinha Sara. Estás MESMO sozinha". Mas sorri.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Um sorriso soluciona sempre qualquer momento solitário! beijo cabecinha de tremoço
ResponderEliminar